quinta-feira, 28 de novembro de 2013

(Des)Espero

Hoje eu me tranco no quarto enquanto o mundo cai lá fora e tento desesperadamente chorar para me dizer que eu sinto alguma coisa além de fome. O dia foi catastrófico. Aliás, as últimas três semanas foram, ou os últimos 15 anos, não sei... Há tanto tempo os transtornos alimentares vivem comigo que não consigo me enxergar para além deles. Comendo compulsivamente, colocando tudo para fora, de tempos em tempos não comendo. Mudo de sintoma assim como de humor. Da depressão para a ansiedade é um pulinho - e de passo em passo eu só penso em comida: as proibidas, as que eu tenho vontade, as que eu vou ou não comer no jantar. Na adolescência eu achava que tudo ia mudar com a ida para a faculdade. De fato, mudou, mas o T. A. continuou. Agora, me formando, eu continuo pensando assim... Que tudo vai ser diferente quando eu for para outra casa, outra cidade, outro lugar. Mas não adianta, ela vai comigo. A bulimia não me larga, porque eu não a deixo ir. Eu a alimento passando os olhos da balança para o espelho, achando que tenho coxas demais, barriga demais, seios demais. Já houveram épocas em que eu podia olhar para meus olhos no espelho e ver como a cor deles é bonita, como eu sou totalmente perfeita e que não há nada de errado com meu corpo. Mas neste momento essa época não se faz presente. Acho que tem excesso demais... Nas pernas, nos braços, no coração. Sempre desejei ser uma pessoa menor e hoje posso até ser, uma pessoa com 15 quilos a menos, mas estou muito mais cheia de problemas. Minto o tempo todo - que já comi, que não quero comer, que não gosto disto ou daquilo. Minto. E aí não dou conta do desejo. Não conto com ninguém, e mesmo que ninguém saiba, mesmo que seja tudo absolutamente segredo e escondido, há sempre um outro me vendo. Posso sentir seus olhos sobre minhas costelas no vaso do banheiro, vejo-o me reprovando, me dizendo que sou uma péssima filha, má aluna, pessoa desprezível. Me olho no espelho e vejo bochechas inchadas e olhos vermelhos. Vejo mãos trêmulas e cabelos fracos. Vejo algo que não gosto e que sei que sou eu quem cultivo. Não quero mais isso. Não quero mais nada disso pra mim e no entanto não consigo parar. Tento me concentrar nas palavras de uma amiga que sempre me diz "para de se forçar, para de se cobrar. Uma hora você vai ficar tão cheia disso tudo que vai parar", mas não sei se posso confiar... Tenho medo de que o meu parar seja para outro lado, para o fim, para o não dar conta de lidar. Tenho vontade de sair correndo deste quarto agora e dizer "ei, pare de doer, por favor!". Por favor, pare de doer que eu não consigo mais. Mas dói, e dói, e dói!

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